Caminhei até o espelho, apenas para constatar que as marcas ainda estavam ali. Olheiras profundas, negras. A encomenda chegou há algumas horas, abri o pacote, peguei o manual de instruções. Parecia tudo muito simples, uma simples substituição e a dor passaria. A hesitação ainda tomava conta de mim, entretanto, como constava no manual, isso era normal, acontecia sempre, com todos sem exceção. Era a etapa mais difícil a ser cumprida, a Decisão.
Tirei a camiseta imunda que usava já havia uma semana. Abri o manual na primeira página. “Primeiro passo: pegue o bisturi, faça a incisão, do lado esquerdo, um pouco abaixo do seio.” Tomei o bisturi com a mão direita, tremia. Cortei exatamente como mostrava a figura abaixo da instrução. Enfiei a mão com cuidado,as pontas dos dedos unidas; no final, precisei fazer um pouco de força, mas consegui entrar onde queria. Segurei o coração que ainda pulsava com a mão, e com uma puxada brusca, como mandava o manual, o arranquei de uma vez. Fiquei ali parada, olhando para ele, ouvindo o seu murmúrio, sua batida descompassada que cantava o teu nome em duas sílabas bem marcadas. Lembrei-me: “é mentira, você tem sim um coração, e ele bate por mim”. A raiva tomou conta de mim, e inutilmente tentei esmagá-lo entre as palmas das mãos. Ele não se calava, mas isto também estava previsto no manual.
Fui até a cozinha, seminua e com o coração nas mãos. Achei a tábua de carne, imunda, era ali que ele merecia morrer. Coloquei-o sobre a tábua, ele ainda batia, as duas sílabas bem marcadas, me atormentando. Abri a gaveta e achei o martelo de carne, cheio de saliências, deveria servir. Uma lágrima escorreu furtiva. “Não!!!”, gritei. A primeira martelada.
“Eu ainda amo você”
A segunda martelada.
“Não gosto mais de você!”
A terceira. Voaram pedacinhos de carne na minha testa, no teto.
“Conheci outra pessoa”
A quarta, mais violenta ainda.
“Não vou me encontrar com ela”
A quinta.
“Já me encontrei com ela”
Mais uma…
“Vou vê-la este final de semana”
Sete.
“Não quero magoar você. Desculpa.”
A última.
Olhei para a massa disforme sobre a tábua, ele finalmente cessara de bater, não me dizia mais nada. Levei o que sobrou até o banheiro, despejei na privada, puxei a descarga. Lavei a tábua com água corrente na pia. Dentro da caixa, um coração novinho em folha, que batia normalmente, sístole, diástole, tum-tum, normal, não chamava pelo nome de ninguém. Coloquei-o no peito, e satisfeita, costurei a incisão. Acabou o tempo de me importar, de sofrer, de achar que a culpa por tudo era minha. Um coração novinho em folha, que ainda não bate por ninguém, mas principalmente, que não grita mais teu nome durante a noite, sem me deixar dormir.




