Epifanias

A fumaça começava, lentamente, a se infiltrar pelas frestas da porta. Estava Ela encantada pela Outra, estava perdida há horas, dias, talvez séculos entre suas pernas. A expressão do prazer na cara da Outra não poderia ser mais linda; Ela regozijava-se por ser a causa, por ter esse efeito, e cada orgasmo da Outra causava-lhe uma pequena epifania. O cheiro, o gosto, o calor a embriagavam, de tal modo que em momentos achava que perdia os sentidos, ou que todos eles se uniam, a louca sinestesia do delírio momentâneo, da insatisfação constante. A fumaça ganhava o ambiente e o calor aumentava.

Ela não conseguia parar… três epifanias atrás a Outra já estava implorando por misericórdia. Ela não se importava, queria continuar exatamente onde estava, perdida em meio a pernas, pêlos, líquidos, saboreando cheiros, cheirando sabores. A Outra, incontáveis vezes, perdia-se na não-existência, na luxúria insaciável por já saciada. A fumaça tomava conta do ambiente.

Em um breve momento de lucidez, a Outra conseguiu libertar-se dEla – que estava embriagada demais para se opor. Encaixaram-se em um abraço perfeito, invertido, deliciosamente obsceno. A tortura excruciante das línguas parecia tornar cada sensação eterna, única e, no entanto, sobreposta a milhares de outras. Risos de gozos histéricos. No quarto onde o tempo não existia, o fogo se alastrava.

Ela e a Outra foram encontradas no dia seguinte entre os destroços do velho casarão, abraçadas ainda, mortas, por certo, mas estranha e impossivelmente intactas. Algumas testemunhas afirmaram que a beleza capturada naquela cena improvável cegou-as temporariamente. Os legistas declararam, por meio de um assessor de imprensa: “Demoramos três dias e três noites para conseguir separar os corpos. Inexplicavelmente, não conseguimos identificá-las, e para todos os efeitos legais estas pessoas nunca existiram.”

Mas poderiam.

Red

[Texto: N.S./Foto: deviantart.com]

~ por solipsista em Maio 6, 2008.

3 Respostas to “Epifanias”

  1. confesso q ler esse conto me fez pensar coisas…. e senti-las tb!
    vc, como sempre, tem o dom d misturar as palavras e criar sentimentos!
    parabéns!!!!!

  2. Oi,
    Conheci hj seu blog.
    Parabéns, vc encanta com suas palavras. Como vc sou gaúcha e as fotos de nascer e por do sol de Porto Alegre encantam.
    Passarei mais vezes por aqui. Parabéns.

  3. Olá, gostaria de saber se essa sensação de multiplos sentidos em seu conto foi realvmente vivenciada por voce!
    Pesquiso a algum tempo sobre um fenomeno momentaneo que ocorre comigo desde a infancia. Um tipo de sinestesia apavorante com duração de 5 minutos.
    Obrigado pela atenção.

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