am/pm
Gilmar trabalhava no turno da madrugada na loja de conveniência de um posto de gasolina. Era habituado a viver situações surreais, quase todas as noites, e especialmente entre três e quatro da manhã.
Esta madrugada ele estava - como sempre que não havia movimento - assistindo televisão em um pequeno monitor escondido pelo balcão, quando ouviu a porta se abrir, aquele maldito e irritante sininho. Levantou-se. Viu uma jovem mulher parada, segurando a porta entreaberta, a observá-lo. Pensou que aquela era a mulher mais bela que seus olhos tinham visto. Engoliu saliva grossa.
- Boa noite?
A mulher o olhava.
- Posso ajudar?
A mulher fechou os olhos,
- Pode.
abriu-os novamente,
- De que precisa?
olhou para a esquerda.
- De você.
A mulher lhe sorriu, pueril, deu meia-volta e saiu da loja. Gilmar ficou como bobo olhando para a porta. Sacudiu a cabeça como pra entender, deu de ombros e sentou-se novamente. Faltavam dez minutos para as quatro horas, quando começava seu programa favorito, aquele das mulheres com peitões.
Sem perceber, começou a sentir-se sonolento. Olhou para o relógio de parede: cinco para as quatro. O comercial na tevê vendia sexo por telefone. “Gemidos de aluguel”, pensou. “Legal”.
Acordou em um quarto de hotel barato. Olhou para o relógio, quatro horas. Pegou o controle da tevê no criado mudo, bebeu água, acendeu um cigarro. Sem querer, queimou a colcha. “Foda-se!” e pensou: dessa vez eu consegui. Sabia que ele a tinha visto, mas não sabia o quanto entendera de fato do acontecido. Ligou a tevê, a imagem de peitos enormes balançando em maiôs vermelhos surgiu aos poucos. Depois de algum tempo, mesmo sem sono, adormeceu.
Gilmar acordou e olhou para a direita. Quatro e cinco. Que sonho estranho… na tevê, maiôs vermelhos. A madrugada seguiu como previsto. Os bêbados habituais das cinco e meia, comprando a saideira, eram a senha para fechar o caixa.
Ela tentou por meses a fio repetir a experiência. Não sabia o que tinha permitido aquele momentinho em que quase o alcançou. Desistiu, definhou e morreu. Ele, parou de sonhar.
[N.S.]
[Foto: deviantart.com]


já dizia alguém por aí: o homem deixa d existir qdo deixa d sonhar!
belo conto!
bom feriado!
Mario Quintana sabia muitas coisas mesmo. Queria convidá-lo pra tomar um café, um cappucino talvez. Ele poderia gostar de estrelas, e me chamar pra contá-las, junto com ele.
Gostei do seu blog. Vc tem faro pras fotos tb.