Ele já sabia… ou Paradoxos II ou Lua Cheia

•Maio 22, 2008 • 4 Comentários


“(…) Nunca toque numa vida se não pretende romper um coração. Nunca olhe nos olhos de alguém se não quiser vê-lo se derramar em lágrimas por causa de ti. A coisa mais cruel que alguém pode fazer é permitir que alguém se apaixone por você quando você não pretende fazer o mesmo.”

Mário Quintana
(Esse cara sabia das coisas…)

Se tu me dizes em um momento que não me queres tua
E no outro que não me queres com outra
Se tu me dizes “a posse não existe”
Mas choras a um canto porque saí do jardim

Se tu não dizes, imagino que pensas
E quando eu penso, não entendo nada
Mas essa coisa tão complexa que é o coração da gente
Às vezes pula batidas pra não se incomodar

Tu és mulher, como mulher eu sou
Eu não te entendo,
tu não me entendes
(pelo menos nisso, nos entendemos)

[N.S.]
(Escrevi isso momentos antes da Lua Cheia
se mostrar em você)


“No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento…”

Mário Quintana

am/pm

•Maio 22, 2008 • 2 Comentários

Gilmar trabalhava no turno da madrugada na loja de conveniência de um posto de gasolina. Era habituado a viver situações surreais, quase todas as noites, e especialmente entre três e quatro da manhã.

Esta madrugada ele estava - como sempre que não havia movimento - assistindo televisão em um pequeno monitor escondido pelo balcão, quando ouviu a porta se abrir, aquele maldito e irritante sininho. Levantou-se. Viu uma jovem mulher parada, segurando a porta entreaberta, a observá-lo. Pensou que aquela era a mulher mais bela que seus olhos tinham visto. Engoliu saliva grossa.

- Boa noite?
A mulher o olhava.
- Posso ajudar?
A mulher fechou os olhos,
- Pode.
abriu-os novamente,
- De que precisa?
olhou para a esquerda.
- De você.

A mulher lhe sorriu, pueril, deu meia-volta e saiu da loja. Gilmar ficou como bobo olhando para a porta. Sacudiu a cabeça como pra entender, deu de ombros e sentou-se novamente. Faltavam dez minutos para as quatro horas, quando começava seu programa favorito, aquele das mulheres com peitões.

Sem perceber, começou a sentir-se sonolento. Olhou para o relógio de parede: cinco para as quatro. O comercial na tevê vendia sexo por telefone. “Gemidos de aluguel”, pensou. “Legal”.

Acordou em um quarto de hotel barato. Olhou para o relógio, quatro horas. Pegou o controle da tevê no criado mudo, bebeu água, acendeu um cigarro. Sem querer, queimou a colcha. “Foda-se!” e pensou: dessa vez eu consegui. Sabia que ele a tinha visto, mas não sabia o quanto entendera de fato do acontecido. Ligou a tevê, a imagem de peitos enormes balançando em maiôs vermelhos surgiu aos poucos. Depois de algum tempo, mesmo sem sono, adormeceu.

Gilmar acordou e olhou para a direita. Quatro e cinco. Que sonho estranho… na tevê, maiôs vermelhos. A madrugada seguiu como previsto. Os bêbados habituais das cinco e meia, comprando a saideira, eram a senha para fechar o caixa.

Ela tentou por meses a fio repetir a experiência. Não sabia o que tinha permitido aquele momentinho em que quase o alcançou. Desistiu, definhou e morreu. Ele, parou de sonhar.

[N.S.]

[Foto: deviantart.com]

Queimando…

•Maio 21, 2008 • 2 Comentários

Risca um fósforo
Vê? O fogo tem três cores!
Como as que vejo em ti
Insistentes tremores!

Me abraça
Vê? A gente sempre aprende
E tem algo pra ensinar
O tempo passa, entendes?

Olha, olha pra mim
Essa é a melhor parte
Vê? Eu sou insistente…
Aprecio a verdadeira arte

Agora, já sabes
Pra eu ir contigo, tens que ir junto
Sem fechar o dia
Sem mudar de assunto

Esse teu cheiro
Gira meu mundo
Mostra as garras!
Me perco, sério…

Perde também a noção, os sentidos, o medo,
Afoga em três cores o desejo do qual fazemos brinquedo
Sabes guardar um segredo?
Pois é…

[N.S]

Paradoxos

•Maio 18, 2008 • 3 Comentários

Que imagem tão linda
Meus olhos avistam!
Qual quadro, com qual tinta
Pintado por qual artista?

Nada supera
Nem se compara
Ao que a visão me mostra:
O paradoxo do qual és mestra

[N.S]

Hoje esta escrevinhante completa 28 aninhos… tão pouco, e tanto tempo! Ainda é idade de descobrir, mas às vezes bate um medinho: existe vida após os 30?

Claro que a resposta é sim. Mas o medinho tá sempre por ali, logo mais serei uma “Balzaca”, meu Deus. O que me faz ver que a coisa não deve mudar tanto assim.

Por enquanto, me delicio com a descoberta de surpreendentes novidades. Ainda!

Parabéns para mim!!!

Ah! As crianças…

•Maio 14, 2008 • 3 Comentários

Teu olhar de criança
Me deixa arredia
Não consigo entender
O que significas…

Teu olhar infantil
Me deixa confusa
Nunca consegui entender as crianças…

Como não te entendo
Jamais te alcançarei

E no entanto o teu olhar me toca
Teu olhar me confunde,
E por confuso me deixa louca
Pois teu olhar de criança
Não me mostra a alma que habita
O corpo de uma mulher

[N.S.]

“Eu sou a chuva pra você secar…”

•Maio 13, 2008 • 2 Comentários

Hoje vou me manifestar, diferente dos últimos posts, diretamente… viva Bacco!

Gostaria de agradecer a quem tem me visitado, especialmente quem se dá ao trabalho de comentar, mas também aos mudinhos que passam por aqui…

Pra quem tem paciência de me ler, valeu!

Uma noite e um dia
Em que ela estava
E me aprendia
E me controlava

Um dia, uma noite
Uma madrugada, outro dia
Provocação e açoite
Emoções fugidias

Agora é domingo
Ela foi embora
Apesar de longa,
apenas uma aurora

Quero em pensamento
Beber de teus beijos todo o esquecimento…

[N.S.]

De Espinhos e Flores

•Maio 11, 2008 • 1 Comentário

Tu e tua falta de ser
me irritam tão profundamente
enquanto mentes

Me achas obrigada
da satisfação
de mil dos teus seres
invisíveis e mal-criados

A toda promessa
corresponde a conseqüência
de não poder voltar atrás

Assim como a águia
que de longe pressente sua presa

Assim tu és…

[N.S.]

Epifanias

•Maio 6, 2008 • 2 Comentários

A fumaça começava, lentamente, a se infiltrar pelas frestas da porta. Estava Ela encantada pela Outra, estava perdida há horas, dias, talvez séculos entre suas pernas. A expressão do prazer na cara da Outra não poderia ser mais linda; Ela regozijava-se por ser a causa, por ter esse efeito, e cada orgasmo da Outra causava-lhe uma pequena epifania. O cheiro, o gosto, o calor a embriagavam, de tal modo que em momentos achava que perdia os sentidos, ou que todos eles se uniam, a louca sinestesia do delírio momentâneo, da insatisfação constante. A fumaça ganhava o ambiente e o calor aumentava.

Ela não conseguia parar… três epifanias atrás a Outra já estava implorando por misericórdia. Ela não se importava, queria continuar exatamente onde estava, perdida em meio a pernas, pêlos, líquidos, saboreando cheiros, cheirando sabores. A Outra, incontáveis vezes, perdia-se na não-existência, na luxúria insaciável por já saciada. A fumaça tomava conta do ambiente.

Em um breve momento de lucidez, a Outra conseguiu libertar-se dEla – que estava embriagada demais para se opor. Encaixaram-se em um abraço perfeito, invertido, deliciosamente obsceno. A tortura excruciante das línguas parecia tornar cada sensação eterna, única e, no entanto, sobreposta a milhares de outras. Risos de gozos histéricos. No quarto onde o tempo não existia, o fogo se alastrava.

Ela e a Outra foram encontradas no dia seguinte entre os destroços do velho casarão, abraçadas ainda, mortas, por certo, mas estranha e impossivelmente intactas. Algumas testemunhas afirmaram que a beleza capturada naquela cena improvável cegou-as temporariamente. Os legistas declararam, por meio de um assessor de imprensa: “Demoramos três dias e três noites para conseguir separar os corpos. Inexplicavelmente, não conseguimos identificá-las, e para todos os efeitos legais estas pessoas nunca existiram.”

Mas poderiam.

Red

[Texto: N.S./Foto: deviantart.com]

As Nuvens e as Idéias

•Maio 4, 2008 • 6 Comentários

Há dias em que o tempo passa devagar,
E pequenas gotas de água
Juntam-se por inevitável atração
Nuvens claras

E há dias em que o tempo fecha
O frio invade as casas
E nuvens outrora mansas
Escurecem, caprichosas

O céu, tingido de escuridão,
cenário para a dança dos gigantes
Deste ponto, não há retorno
As nuvens chovem, abundantes

Há tempos em que os dias passam devagar
E pequenas gotas de inspiração
juntam-se - inevitável atração
Idéias claras

Também há tempos em que os dias se perdem
O frio invade a razão
Idéias, outrora mansas
Revelam-se, furiosas

Tudo é caos e antítese,
é ocaso e gênese
Os pensamentos já pensados
não podem ser apagados

[N.S.]

Paws…

•Maio 3, 2008 • 2 Comentários

Ele me olha, olhos verdes através da janela. Tento convencê-lo a entrar, o que faz menção de fazer, mas se arrepende e volta a fitar-me. Pelo brilho de seus olhos, posso dizer que está um tanto apreensivo, talvez até com medo. É natural, eu acho. Ah, se eu pudesse trazê-lo para dentro! Faço nova tentativa, outro insucesso. Quanto tempo levaremos nisso?

Avalio minha nova tática: mostrar-lhe aquilo que mais deseja. Dizer palavras doces, sussurradas, quem sabe. Ele continua a fitar-me impassível. O que mais pode desejar? Não consigo me concentrar, vou perder o jogo, ele vai embora. Gotas minúsculas de suor começam a brotar de minhas têmporas. E se eu implorasse, então ele ficaria? Estou ficando sem alternativa.

Porque ele quer ir embora? Acaso não o trato bem, não lhe dou carinho prontamente sempre que me pede? Acaso não converso com ele, não lhe faço todos os gostos tão logo eles se manifestam? Mas ele insiste em me tratar assim.

Penso em fingir que estou pouco ligando, talvez até mesmo fechar a janela. Chego a pegar a cortina com a mão… me arrependo. Aqueles grandes olhos não deixam lugar a contestação. Tenho que salvá-lo, antes que seja tarde, senão eu mesma estarei perdida. Abro o vidro lentamente, fixando meus olhos nos seus, exercendo o poder que sempre tive sobre ele e que, tenho certeza, mesmo agora o escraviza. A tensão entre nós dois é evidente.

Sua respiração se acelera, o momento se aproxima. Deslizo minha mão sobre sua nuca macia, afagando-o devagar. Parece relaxar por um instante. Continuo acariciando-o, passando a ponta dos dedos sobre suas costas, lentamente, firmemente. Ele deixa escapar um suspiro, o jogo está virando.

Vagarosamente enlaço sua cintura puxando-o para dentro, sua resistência a esta altura mero fingimento. Finalmente, seguro seu corpo entre meus braços, aliviada. Será esse o final feliz?

- Gato vadio, pára de tentar se suicidar!

[N.S.]